05/12/2015

Quisera eu saber falar de outra coisa que não seja eu


Vamos direto ao ponto : roubaram-me a língua.

Considerando os critérios cibernéticos de longevidade, sou blogueira há muito tempo. Mas, como já devo ter dito em algum lugar, minha vida online começou na blogosfera francesa, e um dos meus blogs mais duradouros e ao qual eu mais me dediquei ainda está no ar. Os "fãs" da barra lateral eram todos meus amigos, que eu conhecia pessoalmente e dividiam minha vidinha de colegial comigo, e o meu blog deve figurar na barra de fãs dos blogs que, assim como o meu, ainda estão no ar. Tenho até selo OldSkool porque o blog é mais antigo que o próprio blog da equipe do skyrock (equivalente do blogspot, wordpress, etc.)

Apesar de saber que meus amigos me liam, e muitas vezes comentavam, eu escrevia coisas sobre a minha vida, meus pensamentos, e até sentimentos que eu hoje talvez não tivesse coragem de compartilhar com quem me cerca. De vez em quando leio uma ou outra coisa, e cara, que garota incrível eu era! Não só no modo de pensar como na maneira de escrever. Eram vários posts cheios de originalidade. Admito sem medo que me releio com prazer.

Eu escrevia esses blogs em francês. Aliás, sempre tirei notas excelentes em francês, redação, literatura. Adorava os exercícios de écriture d'invention. O professor dava um tema, ou um estilo de escrita a respeitar, e podiamos deixar a pluma correr sobre o papel. Nessa época, qualquer coisinha virava post, recado na agenda, segredo no diário... Um mood mais melancólico então era um prato cheio! Eu era danada para inventar e narrar histórias.

Depois disso eu passei no vestibular e comecei a faculdade de português. Passei os últimos cinco anos mergulhada na lusofonia até o pescoço. Infelizmente, só até o pescoço. A língua portuguesa não chegou até meu cérebro, e não me permite brincar com as palavras como eu o fazia, em francês, até 2009 (segundo os arquivos do blog). Por outro lado, perdi a prática da escrita francesa. Agora qualquer início de frase na língua de Molière me parece clichê, vazio, forçado. 

Não tenho mais nenhuma língua para escrever bem. Escrever bonito. Escrever algo que desperte alguma coisa no coraçãozinho de quem lê. Fiquei orfã.



Nessa época eu tinha a ótima mania de 
1. não viver sem música
2. escrever o nome da música que eu ouvia enquanto escrevia os posts
Sim! Eu curtia muito Los Hermanos. Hoje isso não faz mais sentido algum ahaha.
3. fazer edições de foto toscas em que eu deixava tudo em preto e branco, fora uma cor