01/07/2016

Crianças cuidadas por crianças

Conheço pessoas que se refugiam em suas memórias e pessoas que fogem delas. A memória é uma construção íntima, que às vezes foge do nosso domínio. Aprendi a silenciar memórias. A maioria delas. Em julho de 2009 recebi a notícia de que tinha passado no vestibular com menção honrosa, meu pedido para ingressar na universidade de Toulouse havia sido aceito, e os papéis referentes ao aluguel do meu novo apartamento estavam em andamento. Foi meu pai quem me deu os primeiros parabéns com um buquê de flores, algumas lágrimas e uma sacolinha cheia de compotas geladas pois era a única coisa que eu conseguia comer. Estava internada no Centro Hospitalar Universitário de Kourou, com febre e garganta inflamada, tomando soro.

Passaram-se sete anos. Há pouco menos de um mês soube que passei no concurso para professores certificados. Disciplina português língua estrangeira. Classificação primeiro lugar. Trabalharei na academia de Versalhes. Vou ter de me mudar novamente para um lugar onde nunca pus os pés, e que não escolhi de fato. Não esperava por um baque tão brutal no peito. Pensei mesmo que encararia essas mudanças com mais tranquilidade. A mesma tranquilidade de quando passei de lycéenne a étudiante. De kouroucienne a toulousaine. De estação-das-chuvas-seca-estação-das-chuvas a verão-outono-inverno-primavera-verão. De casa-de-mãe a meu-apê-minhas-regras.

Não tinha contado com o filme que iria passar pela minha cabeça. A tal da memória e algumas palavras-chave. Partir do zero, desconhecido, solidão, fazer amizades, depressão, aclimatação, frio, construir, do zero, amizades, construir, círculo social, capacidade, solidão, do zero. E um fator agravante : nenhuma vontade de deixar o lugar no qual eu moro e as pessoas com quem divido meu cotidiano atualmente. Quando saí da Guiana, eu tinha dezoito anos. Não depositei muitas expectativas nem idealizei minha futura vida em solo francês, mas estava ansiosa por um pouco mais de liberdade, precisava de espaço, necessitava pôr distância entre meu ser e tudo aquilo ao que eu pertencera até então. Desta vez, não. Gosto de Toulouse, do que eu construi aqui, das pessoas que deixei entrar na minha vida. Sou consciente das oportunidades que tive por estar aqui. Lugar certo, momento certo.

Como vai ser lá? Com que energia irei encarar o mundo, o frio, os outros? Parece loucura uma pessoa temer mais a diferença climática entre Toulouse e Paris do que entre a Guiana e Toulouse. Eu estou com medo do frio que vem de dentro. Há sete anos, minhas incertezas, minha depressão, minha total e absoluta falta de vontade de sair de casa, sair da cama, (viver), eram muito íntimas e só diziam respeito a mim mesma. Agora já não. Não serei mais apenas uma caloura inteligente o suficiente para passar de ano estudando por conta propria sem assistir às aulas. Serei eu a dar as aulas. O apoio. O suporte. A atenção. A responsabilidade. Que estrutura moral, psicológica, emocional, terei eu para fazer isso? Quem vai acreditar quando eu disser que nada disso foi planejado? Fui eu quem me matriculei no tal do concurso não foi? Fui eu quem coloquei Versalhes como terceira escolha possível na lista dos lugares para onde poderia me mudar não foi? Então de onde vem essa sensação de que as rédeas do meu destino estão em outras mãos que não as minhas?

Tenho dois meses para virar adulta. Para me tornar uma pessoa emocionalmente equilibrada e apta a auxiliar na formação de cidadãos em contrução. Aprender a lidar com dramas alheios. Não desmoronar. E mesmo assim ser uma professora legal. Afinal de contas acho que essa pressão toda vem dessa única palavra : professora. Uma profissão não muito óbvia, não muito valorizada mas que eu levo muito a sério. Por enquanto estou me sentindo assim, como uma criança insegura encarregada de cuidar de outras crianças, ingratas e perdidas.